Apesar de me apetecer rebolar na caminha até às tantas, hoje tive de madrugar. Às 7h da manhã estava a pé, pronta para ir tratar do cartão único, à Loja do Cidadão dos Restauradores. Dizem que as filas são demoníacas, pelo que mais vale prevenir e ir bem cedinho. Assim foi.
Faltava uma hora para aquilo abrir quando cheguei. Havia fila. Grande. Gigantesca. Infindável. É que não se via mesmo onde acabava! Missão: procurar o fim da fila. Sigo aquela linha de pessoas, passo o quiosque dos jornais, passo o elevador da Glória, passo tudo e mais alguma coisa (mas onde raio é que a puta da fila acaba? - sim, o meu vocabulário fica refinado nestas situações) até que vejo o fim, mesmo ao pé da entrada para a Praça da Alegria. Suspirei, saquei do livro e toca de esperar que aquilo abra.
Não gosto de ler em pé, mas estar a olhar para o relógio de minuto a minuto não é uma alternativa melhor. Até que (e olha que fixe) começa a chover. Mas chuva a sério, daquela que molha! Bendito caderno que tinha na mala (o estudo sempre compensa, quem diria!) que me protegeu, e bendita a senhora que estava atrás de mim, que foi buscar o chapéu de chuva ao carro e o partilhou com quem estava à volta.
Na amena cavaqueira com as minhas novas amigas do chapéu de chuva, o tempo passou mais rápido. É sempre bom estar com alguém que partilha as nossas angústias e onde temas de conversa como "se isto é para facilitar vou ali e já volto", "e nas Laranjeiras ainda é pior!" fluem naturalmente. Finalmente, às 9h30, abre a Loja do Cidadão. Lá vamos nós, em passo lento mas certinho, até à porta.
A caminhada durou pouco mais do que vinte minutos, mas quando entrei vi o inferno. Estava tudo possuído a correr para os balcões, era ver empurrões, criançinhas a ser arrastadas pelos papás, uma carnifícina digna dos serviços públicos em que nos encontravamos. Suspirei novamente (muito suspirei eu nesta manhã) e perguntei a um segurança onde era o balcão para tratar do cartão. Na cave. Encontrar as escadas, tentar descer, procurar o balcão, achar o balcão, ir para a fila das senhas e ouvir aquela voz fanhosa da caixa dos supermercados "informamos todos os utentes que pretendem tratar do cartão do cidadão que já não existem mais senhas para distribuir".
Foda-se (mesmo assim, à obral...). É que estão a brincar comigo, só pode! Mas será que ouvi bem? Pergunto às minhas amigas de luta: a senhora disse o que eu penso que disse? Sim, disse. Bufei, esperneei, revirei os olhos, murmurei algumas coisas impróprias, barafustei, alimentei as raivas de quem estava mais furioso que eu, pensei em pedir o livro de reclamações, escrever uma carta ao Governo, informar os meios de comunicação social (na esperança da Manuela Moura Guedes fazer uma reportagem de meia hora sobre o assunto, como ela tanto gosta), mas acabei por sair, resignada. Eram 10h01 e estava no comboio de regresso à Amadora, agarrada ao telemóvel, a queixar-me da minha vida a tudo quanto era gente. E pronto, foi assim a minha manhã.
Moral da história: os serviços públicos não funcionam (excepto a Junta de Freguesia da Falagueira, essa instituição que eu tanto amo e estimo) e no próximo sábado a saga continua (provavelmente comigo a acampar à porta, com cartazes de protestos!)
3 comentários:
Welcome to Portugal.... é isso e o centro de emprego... quando acabam as senhas adeus só no dia a seguir... completamente surreal!
paulinhaaaaaa
um segredo...
na rua braancamp....no sitio onde se regista os carros e tal... na cave fazes o cartao unico em 10minutos..
segredoooooo!
:D
Isso eu sei :) Mas infelizmente eses sítios milagrosos só funcionam de segunda a sexta, das 9h às 16h. E não posso (ou queria evitar ao máximo) faltar ao trabalho para ir tratar de documentos pessoais. Ou seja, sábado lá estarei eu, às 7h da manhã, para tirar a porra do cartão único. É que o BI está mesmo mesmo a caducar...
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